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História de A-do-Barbas
Não se conhecem vestígios pré-históricos
encontrados no lugar de A-do-Barbas ou seus arredores, mas não é
inverosímil que alguma vez se venham a encontrar especialmente na zona
da Tufeira.
Entre as cinco ou seis inscrições funerárias romanas
encontradas na freguesia de Maceira, uma delas, dos primeiros séculos
da era cristã, foi descoberta no lugar de A-do-Barbas em Setembro
de 1898, por José Barreiros Calado, do Juncal, e por ele adquirida
e levada para sua casa, onde ainda se encontra, na posse dos herdeiros.
Está escrita em latim num bloco de mármore, mutilado na
parte superior. Pode reconstituir-se quase totalmente. Estava na sepultura
de um jovem e dizia: "Consagrado aos Deuses Manes de Valério
Máximo, da Quirina, natural de Collipo, que morreu com 20 anos.
Sua mãe, Flávia Máxima, mandou levantar este monumento
à memória de seu filho".
Não há certeza absoluta de que a inscrição
encontrada no lugar original, isto é, que o jovem Valério
e sua mãe fossem naturais e residentes no lugar que hoje se chama
A-do-Barbas. Mas a tradição do achado de moedas e até
cadáveres no sítio do Joo leva a crer que esse sítio
fizesse parte de um "vicius", isto é, de uma
aldeia pertencente ao município de Collipo, uma cidade romana que
tinha o seu assento no monte de S. Sebastião do Freixo, na freguesia
da Batalha, a sete quilómetros e meio da actual cidade de Leiria,
e pertencia ao convento escalabitano, uma das três divisões
administrativas da Lusitânia.
Desde a época romana até aos inícios da nacionalidade
Portuguesa, nada mais sabemos sobre A-do-Barbas, o que não significa
que não continuasse a ser povoada.
O primeiro documento escrito que conhecemos referente à área
que veio a ser a da primitiva paróquia de Maceira, diz respeito
à Melvoa: é a carta da doação de Alcobaça
e seu couto ao mosteiro de Claraval, pelo rei D. Afonso Henriques, data
de 8 de Abril de 1153, cujo limite norte, a confinar com o termo de Leiria,
passava pelo rio de Cós e pela Mélvoa e pela mata de Pataias
("transit per Meluam ad ipsam matam de Pataias"), e
em direcção ao mar. Não repugna pensar que estando
tão próximo da Mélvoa, este sítio já
fosse novamente habitado, nós séculos XII e XIII e que navia
de comunicação, que ligava Alcobaça a Leiria ja passasse
por A-do-Barbas, nesses séculos, o que significa que por esse lugar
deveriam passar os viandantes e peregrinos que do sul se dirigiam às
localidades do norte de Portugal e até Santiago de Compostela.
Pode-se, por tanto pensar que o próprio Santo António de
Lisboa, que segundo a tradição passou por Alpedriz, vindo
de Coimbra, poderia ter transitado também por A-do-Barbas.
O Mosteiro de Alcobaça possuía algumas propriedades em "A
de Barbas, cerca de Melva", registadas num tombo do ano de 1433,
uma das quais se situava no Barreirinho, entestando na Lameira do Bernaldo,
e a outra no mesmo sítio, com as suas confrontações.
Nesse ano trazia-as arrendadas um Pedro Eanes, enquanto fosse mercê
de Dom Abade, e pagava ao mosteiro um terço dos frutos.
Também a coroa real foi tomando posse de outros bens, como por
exemplo de uma sesmaria de mato maninho, na Ervedeira, limite "das
Barbas", que fora entregue a um Pero Gonçalves, morador no
mesmo lugar, e que ele não aproveitara e, por isso, foi concedida,
a 20 de Fevereiro de 1516, a um Simão Rodrigues Dantas, escudeiro
de Leiria. Esse mato maninho tinha estas confrontações:
"vai dos Pardieiros pelo caminho até onde uiva o chão
e daí vai pelo dito caminho até ao Porto das Vacas e volve
pela água abaixo ao Porto do Bernaldo e assim volve por caminho
ao forno do pez e daí torna aos ditos Pardieiros".
Em 1517, D. Manuel I, em nome do seu filho, cardeal D. Afonso. "passou
certos mandados (...) pelos quais ordenou e mandou que na ermida de Santa
Maria de Maceira, termo da dita vila (de Leiria), e por estar mais de
légua dela e da Igreja de S.Estêvão da dita vila em
cuja paróquia a dita igreja de Maceira está se pusesse pia
de batizar e se dissesse missa aos domingos e festas por capelão."
Entre os lugares que a igreja de Santa Maria de Maceira começou
a servir naqueles anos de 1517 e 1524, mencionavam-se os Pisões
e A-do-Barbas e a Mélvoa.
Três anos depois, em Setembro de 1527, num recenseamento populacional
do reion, a Aldeia de Barbas registava 9 fogos e a da Mélvoa 12.
No mesmo mês e ano, reuniu-se a maior parte dos chefes de famílias
do Concelho de Leiria, numa quinta das freiras de Santana, para o estabelecimento
do pagamento das sisas, e entre eles estava, pelo menos, um de A-do-Barbas
chamado Pedro Anes.
Com a criação da diocese de Leiria, em 1545, a paróquia
de Maceira foi crescendo, como se pode advertir pela multiplicação
de lugares de culto, uns feitos e dotados por pessoas particulares, outros
"mandados fazer em visitação, para administração
dos ditos lugares são obrigados à fábrica delas",
conforme diz o "Couseiro" ou "Memórias
do Bispado de Leiria", manuscrito redigido cerca do ano de 1657(cap.83)
A ermida de S.Tiago de A-do-Barbas é ai mencionada, pela primeira
vez, sem se referir a data da fundação: "No lugar
da do Barbas outra (ermida), da invocação de São
Tiago; imagem de vulto".
Pela sua dedicação a S. Tiago, a ermida pode ter sido fundada
por peregrinos vindos de Santiago de Compostela, vindos de Alcobaça
ou da Nazaré, ou pelos moradores do lugar, levados pela circunstância
da passagem frequente dos peregrinos. É uma conjuntura, não
alicerçada, porém em qualquer fundamento documental.
Outra hipótese: Alguns autores referem que o nome do lugar deriva
dos Barbas Alardos, família de fidalgos, que chegaram a ser alcaides
do castelo de Leiria e que tinham naquele lugar alguma propriedade: "A
(propriedade) do Barbas".
Pois bem: esses fidalgos habitaram a Quinta de Nossa Senhora do Amparo,
com palácio de capela fundada em 1564 por Gaspar Correia e sua
mulher Inês de Évora ("Couseiro" cap.27)
que fica na antiga e actual paróquia de S.Tiago, na encosta entre
a cidade de Leiria e os Marrazes (esta quinta é hoje a Escola de
Formação Social Rural). Foram esses mesmos fidalgos que
juntamente com o pároco S. Tiago, empreenderam a construção
da nova igreja paroquial, um pouco mais acima, no ano de 1829.
Talvez que esta circunstância, ligada à passagem do peregrinos
por A-do-Barbas e pela igreja de S. Tiago de Leiria, tenha levado os Barbas
Alardos do séc XII ou já antes, a edificar também
a ermida deste lugar.
Entretanto, nos finais do séc XII ou princípios do XIII,
a paróquia de Maceira foi reduzida de uma parte do seu território
inicial, e transferindo-se para a paróquia de Pataias, os lugares
da Mélvoa, com a respectiva capela de S.Maria Madalena, Pisões,
Moita, com a respectiva capela de S. Silvestre, e talvez Martingança.
Nas "Notícias enviadas à Academia Real",
em 1721, o lugar de "A de Barbas" tinha 32 fogos. Nesse mesmo
ano, o Padre Luis Vieira de Sousa então pároco da Freguesia
de Maceira, dizia havia uma ermida "de S. Tiago no lugar da Debarbas,
que a fabrica a povoação do lugar; fica para o lado poente;
não há memória de quando foi feita por ser antiga"
Em 1733, houve uma visita pastoral à referenciada Maceira, feita
pelo Cónego José Velho de Miranda, em nome do bispo de Leiria,
D. Àlvaro de Abranches. Visitou também a ermida, a que dá
o nome talvez por erro, de S.Batolomeu, do lugar da de Barbas, dizendo
o seguinte; "achei que necessitava de um frontal, toalhas para o
altar, corporais, um véu para o cálice e sanuinhos; mando
que os moradores do dito lugar dentro de um mês façam um
frontal de madeira, pintado de uma banda de vermelho e da outra de branco
e três toalhas, uma mesa de corporais e quatro sanguinhos e duas
toalhas para o lavatório, o que fará no dito tempo sob pena
de duzentos reis cada um dos ditos moradores que aplico para a mesma ermida!".
O pároco de 1758, Pedro António Rodrigues Pires, nada mais
acrescenta sobre a capela do lugar de A-do-Barbas a que chama novamente
S. Tiago, dizendo-se que pertencia ao povo do Lugar.
D. Frei Miguel de Bulhães, bispo de Leiria, no decorrer de outra
visita pastoral , em 1767, visitou também a capela de A-do-Barbas,
ordenando: "Que os moradores do lugar de DEbarbas, aos quais
pertence a administração da Capela de S.Tiago, sita no dito
lugar, cuidem logo em reparar as ruinas que está ameaçando
a dita capela, provendo-a de uma bolsa de corporais branca, de um véu
do cálice branco e um frontal, de que muito necesita".
Na verga da porta da antiga sacristia, havia a data de 1769, que devia ser
a data da reconstrução mandada executar dois anos antes. Essa
data juntamente com a de 197 foi posta numa placa nova, na sala de entrada
actual para a sacristia.
O Cónego José Pereira da Costa escreveu uma Memória
sobre a igreja Paroquial de Maceira, em 1900, na qual escreve também
sobre as capelas da freguesia, dizendo o seguinte da de A-do-Barbas: "Não
se sabe quando foi erecta. Como fosse muito acanhada e sem condições
algumas de asseio e imprópria para ali se celebrar os Augustos
Mistérios da nossa divina religião, bem convencido do brio,
união e até mesmo das forças daquele bom povo, instei
e consegui que em 1886 se arrasasse a antiga e se construisse a que agora
se vê pela sua elegância, vastidão, solidez e bem acabado,
faz na verdade a honra daquele povoado cheio de fé e piedade. Conheço
muitas matrizes que ficam a perder de vista e são de inferioridade
bem notória a par daquele elegante templo. Nesta obra que foi rápida
pois se levantou dentro de um ano, gastaram-se cerca de 500$000 reis.
Presentemente (1900) projectam-se uns melhoramentos que se se realizarem,
como creio ficará não só a primeira capela da freguesia
mas de todo o concelho.
Duas opiniões acerca do nome de A-do-Barbas
1. A-do-Barbas
O seu nome provém de no local da actual povoação
ter existido uma quinta da família dos Barbas Alardos que foram
alcaides de Leiria até ao reinado de Afonso V e depois desde o
de D. João IV até à implantação do
regime liberal (1820).
O costume popular de suprimir palavras, dizendo por exemplo, vai à
do Barbas, em lugar de vai à quinta do Barbas, deu lugar à
actual designação.
(Tito Benevenuto Larcher - Leiria - Dicionário biográfico
e histórico do distrito de Leiria, Leiria, 1904 p.3)
2."Um pouco de história de A-do-Barbas"
"Este documento (refere-se ao documento de 20 de Fevereiro
de 1516 sobre a sesmaria de A-do-Barbas, transcrito por Alfredo de Matos,
em 'O Mensageiro', 28 de Fevereiro de 1971) refere-se a A-do-Barbas, povoação
da freguesia da Maceira. Por este documento se vê que A-do-Barbas
que sempre ouvimos dizer provir do nome duma taberna existente no lugar
que tinha por proprietária ou caixeira uma mulher com barbas, já
tinha este nome no reinado de D.Manuel - 1495 a 1521". ( Nota de
redacção, certamente da autoria do Padre José Ferreira
de Lacerda, ao artigo de Alfredo de Matos. "Um pouco de história
de A-do-Barbas", em "O Mensageiro", nº 2357 de 28
de Fevereiro de 1963 p.4)
"Historia de A-do-Barbas", caderno criado em
1995 por "Os Escolhidos, Grupo de Jovens A-do-Barbas"
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